Espetáculo conta trajetória de Marcelo Rubens Paiva em narrativa não linear embalada por sucessos dos anos 1980; veja como foi a estreia

20 set 2026 - 01h21

(atualizado às 07h26)

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- Por: Julia Queiroz

Resumo

O musical "Feliz Ano Velho", dirigido por Gustavo Barchilon e escrito por Marilia Toledo, estreou em São Paulo adaptando a obra autobiográfica de Marcelo Rubens Paiva. Estrelado por Hugo Bonèmer e Bruno Garcia, o espetáculo retrata o acidente que deixou o autor tetraplégico e o luto pela perda do pai na ditadura. Com narrativa não linear, estética minimalista e sucessos do rock nacional dos anos 1980, a emocionante e nostálgica montagem fica em cartaz na capital paulista até 22 de novembro.

Elenco durante o ensaio do musical 'Feliz Ano Velho' no teatro Sabesp Frei Caneca, na região central de São Paulo.

Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

"Eu só quero que você veja que andar não é a única maneira de caminhar", diz o ator Bruno Garcia, interpretando a versão madura do escritor Marcelo Rubens Paiva, em determinado momento do musical Feliz Ano Velho. A frase é dita a Hugo Bonèmer, que vive um jovem Marcelo pouco após o acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos.

É um momento chave do espetáculo: quando Marcelo encara que a vida que imaginou para si precisa ser reinventada e que, talvez, a literatura realmente seja o caminho. Também é uma cena que exemplifica bem a mensagem do musical, emocionante sem sentimentalismo, de que a vida persiste mesmo nos momentos mais desafiadores.

Dirigido por Gustavo Barchilon e escrito por Marilia Toledo, o musical teve bem-sucedida estreia na noite deste sábado, 19, no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo, com a casa quase lotada. Parecia uma plateia pronta para abraçar a nostalgia do espetáculo, que aposta em grandes sucessos dos anos 1980, com Legião Urbana, Lulu Santos, Cazuza, Ultraje a Rigor, Rita Lee e mais, para embalar uma história que marcou a década.

Em 1979, Marcelo Rubens Paiva, então um jovem charmoso que havia recém deixado a casa da mãe, mergulhou em uma lagoa rasa em Campinas, no interior de São Paulo, e bateu forte a cabeça. O impacto causou uma fratura na quinta vértebra cervical e comprimiu a medula espinhal, deixando-o tetraplégico.

A experiência, somado aos causos vividos pelo jovem antes e depois do acidente e ao luto pelo desaparecimento do pai, o ex-deputado Rubens Paiva, vítima da ditadura militar, deu origem a Feliz Ano Velho, livro autobiográfico que logo se tornou campeão de vendas no Brasil. Narrado com linguagem crua e pouco polida, "deu voz a uma geração", como diz um dos personagens do musical.

Musical 'Feliz Ano Velho' segue em cartaz em São Paulo até 22 de novembro.

Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

O espetáculo tem como inspiração a peça original de Alcides Nogueira, de 1983, baseado na obra de Paiva, mas amplia a história para refletir sobre o sucesso do livro e também o de Ainda Estou Aqui, de 2015, cuja adaptação garantiu um Oscar de Melhor Filme Internacional ao Brasil. Na peça, Eunice Paiva é interpretada por Heloisa Perissé, enquanto Rubens é vivido também por Bruno Garcia, escolha intencional da direção.

A obra adere a uma narrativa não linear, indo e voltando no tempo justamente para explorar as angústias de Marcelo, da frustração por não poder tocar violão à dúvida de como será sua vida sexual a partir dali. Há também muita licença poética, como as conversas de Marcelo com sua versão mais velha ou com o pai.

A estrutura do espetáculo é minimalista, com cenários compostos principalmente por escadas com as quais o elenco interage durante coreografias elaboradas e em truques cenográficos que nos lembram mais o teatro raiz e menos o glamour dos musicais. Outro componente importante são dois telões que reproduzem filmagens do próprio elenco em tempo real e ajudam a criar marcas temporais, quando necessárias.

O musical 'Feliz Ano Velho' tem cenário minimalista, com escadas e telão que ajudam o fluxo narrativo.
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão
O recurso dá um tom cinematográfico para o espetáculo, mas nos permite ver o rosto de Marcelo e a ótima interpretação de Bonèmer - mesmo quando deitado na cama do hospital. Em alguns momentos, o telão também cria uma narrativa visual que conversa com a não linearidade da trama. Um dos destaques, por exemplo, ocorre durante a bela interpretação de Amor e Sexo, de Rita Lee, na voz da atriz Bibi Tolentino.
A tecnologia, entretanto, pode ser um risco: durante a estreia, o telão sofreu um breve problema de funcionamento, mas nada que tenha afetado o andamento do espetáculo.
Por vezes escondida, por vezes em destaque, a excelente banda ao vivo merece destaque. A música é, claro, ponto alto de um musical, mas poderia facilmente soar apelativa dado o teor nostálgico. Felizmente, na veia de musicais como Moulin Rouge e Rock of Ages, as canções escolhidas têm verdadeira sinergia com a trama.
Elenco de 'Feliz Ano Velho' em ensaio no Teatro Frei Caneca, em São Paulo.
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão
Quando Marcelo diz que só sairá do hospital andando, o que todos à sua volta sabem que não será realidade, o elenco canta É Preciso Saber Viver, clássico de Roberto Carlos e Erasmo Carlos regravado pelos Titãs. Já Tempos Modernos, de Lulu Santos, tocada mais ao final do espetáculo, é a trilha de um dos momentos mais bonitos da peça, em uma interação de Marcelo e seu médico, interpretado por Luciano Mallmann, ator cadeirante de 54 anos.
Sem medo de inovar em linguagem e estética e com potencial para conversar com diversos públicos, Feliz Ano Velho é um musical que merece ter vida longa no teatro. Por ora, a temporada paulistana segue até 22 de novembro. Depois, em janeiro, o espetáculo inicia temporada no Teatro Riachuelo, no Rio.
Feliz Ano Velho - O Musical
- Onde: Teatro Sabesp Frei Caneca. Shopping Frei Caneca - 7º andar
- Quando: De 19/9 a 22/11. Sexta, 20h; sábado, 17h e 20h; domingo, 15h e 18h
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