Durante muito tempo se repetiu a cantilena de que o PT havia envelhecido, perdido contato com as novas gerações e deixado para a direita e a extrema direita o protagonismo entre os jovens. Havia razões para levar esse diagnóstico em conta: formas tradicionais de organização perderam eficácia e demoramos a compreender novas linguagens, redes sociais e mudanças no mundo do trabalho.O erro foi transformar dificuldades reais, próprias desses tempos de mudanças profundas, em sentença definitiva.A eleição deste ano mostra uma realidade mais complexa. A juventude é hoje um dos segmentos em que Lula encontra apoio relevante, tem papel importante na mobilização do segundo turno e uma nova geração começa a conquistar espaço no PT e no campo progressista. A tese de uma ruptura irreversível entre a juventude, Lula e o PT não se sustenta. Ao contrário: voltamos a disputar esse terreno com força.Às vésperas do primeiro turno, o Datafolha mostrava Lula com 46% entre os eleitores de 16 a 24 anos, contra 32% de Flávio Bolsonaro. Depois do primeiro turno, o movimento ficou ainda mais significativo. Na primeira pesquisa dessa etapa, Flávio aparecia numericamente à frente, por 50% a 43%.No Datafolha de 15 de outubro, o placar se inverteu: Lula passou a 50% e Flávio caiu para 43%. Em votos válidos, são 54% a 46%. A margem de erro nesse segmento é de seis pontos, portanto há empate técnico. Ainda assim, em uma semana Lula ganhou sete pontos e Flávio perdeu sete entre os mais jovens.Pesquisa não é voto, sobretudo em recortes menores. Mas, combinadas com o que vemos nas ruas, as pesquisas revelam um movimento que precisa ser compreendido pela esquerda.Jovens e movimentos estudantisA mobilização deste segundo turno é outra evidência. Jovens e movimentos estudantis tiveram protagonismo em atos recentes, ao lado de movimentos sociais, artistas, coletivos e comunidades digitais. Há estruturas partidárias, mas também grupos autônomos. A esquerda precisa aprender com isso, sem enquadrar toda manifestação nas formas do passado.A digitalização, a plataformização e o trabalho precário mudaram a maneira como milhões vivem e se organizam. O jovem da periferia, o entregador submetido ao algoritmo e quem combina estudo, bicos e emprego precário fazem parte dessa realidade. O PT precisa falar com essa juventude como ela existe.E não é apenas uma questão de comunicação. Não resolveremos nossa relação com os jovens contratando mais influenciadores ou aprendendo a fazer vídeos curtos. Comunicação é fundamental, mas ninguém sustenta uma relação política sem projeto. E projeto é algo que temos: um projeto ancorado na construção, e não na destruição, como é o da extrema direita bolsonarista.Há uma terceira evidência: as urnas. O PT elegeu 70 deputados federais e a idade média da bancada caiu de 55,2 anos em 2022 para 52,6 anos em 2026, a primeira redução desde 1998. Ainda teremos uma das bancadas mais velhas da Câmara, mas o movimento começou.Alguns nomes relevantes dão rosto à mudança. Ana Elisa, de Minas, foi eleita aos 21 anos. Ana Júlia Ribeiro e Pedro Rousseff têm 26. Diego Quaquá, 28; Rosa Amorim, 29; Camila Jara, 31; Luna Zarattini e Dandara Tonantzin, 32; e Miguel Ângelo, 35.No campo progressista mais amplo, Guilherme Cortez, do PSOL, também integra essa renovação. Isso sem contar lideranças já consolidadas, mas igualmente jovens, como Erika Hilton, de 33 anos, ou a nova geração petista que estará na Assembleia Legislativa de São Paulo, com Duda Hidalgo, 27, Leonardo Grandini, 24, e Thainara Faria, 31. Há muitos outros exemplos espalhados pelo país.“Com o novo todo o velho contagia”O poeta João Cabral de Melo Neto escreveu em Morte e Vida Severina: “Com o novo todo o velho contagia” e “corrompe com sangue novo a anemia”. A chegada de uma geração formada no movimento estudantil, nas periferias, nas lutas das mulheres e do movimento negro, nas redes e em novas formas de militância pode renovar ideias, métodos e a relação do partido com a sociedade.Lula percebeu esse movimento. Depois do primeiro turno, reuniu parlamentares eleitos e gravou com jovens como Ana Elisa, Rosa Amorim, Luna Zarattini e Guilherme Cortez. O encontro entre Lula, aos 80 anos, e deputados de 20 e poucos ou 30 e poucos anos ultrapassa uma campanha. A continuidade de um projeto político se constrói formando novas lideranças.Como o próprio Lula me disse: “O meu sucessor é o PT”. Não no sentido burocrático de substituir um nome por outro, mas de construir força política, base social e novas lideranças capazes de levar adiante um projeto nacional. Uma organização só sobrevive quando transmite experiência sem impedir a novidade.E é justamente o futuro que está no centro da questão da juventude. Em artigo que escrevi em abril para a Fundação Perseu Abramo, afirmei que o capitalismo contemporâneo rebaixa expectativas e reduz horizontes.Milhões vivem administrando urgências: a conta que vence, o aluguel, a procura por emprego, a dívida, o próximo serviço no aplicativo. Para quem vive assim, planejar cinco ou dez anos adiante muitas vezes se torna um privilégio. Recuperar o futuro é uma tarefa política central.Que futuro oferecemos ao jovem que conclui a universidade e encontra trabalho precário? Ao estudante que precisa abandonar os estudos para ajudar na renda da família? Ao trabalhador de aplicativo que não sabe quanto ganhará no mês seguinte?O Prouni, as cotas, os institutos federais, a expansão das universidades e o Pé-de-Meia ampliaram oportunidades. Mas seria um erro transformar conquistas do passado em cobrança de gratidão política. Direitos não são favores. Uma geração que teve mais oportunidades tem todo o direito de exigir o próximo passo.Esse passo precisa associar educação, ciência, tecnologia, reindustrialização, transição ecológica e trabalho de qualidade. Precisamos enfrentar a precarização e discutir inteligência artificial olhando também para o emprego e a distribuição dos ganhos de produtividade. A redução da jornada fala diretamente com essa geração: desenvolvimento tecnológico deve significar mais qualidade de vida, e não apenas mais produtividade.Transformar o sistema por dentroHá na juventude uma força contestadora, uma disposição para questionar hierarquias, convenções e estruturas estabelecidas. É, nesse sentido, uma força antissistêmica. Nos últimos anos, a direita radical, em sua forma bolsonarista, conseguiu apresentar-se a muitos jovens como dona dessa rebeldia, como se ser contra o sistema significasse necessariamente ser contra a esquerda, os partidos e o Estado.Não é assim. A luta antissistêmica também pode se dar no Partido dos Trabalhadores. O PT nasceu contestando uma ordem política, econômica e social profundamente desigual e procurando transformar indignação em mudança concreta. Quarenta e seis anos de história, governos, acertos e erros não apagam essa origem.Há uma aparente contradição: como um partido que esteve tanto tempo no governo pode continuar sendo força de transformação? A resposta depende do que fazemos com o poder. Estar dentro das instituições não precisa significar conformar-se com elas. Com organização e mobilização social, o poder político pode produzir transformações mais eficazes.É aí que o sangue novo se torna indispensável: para trazer inconformismo, crítica e disposição para mudar aquilo que a rotina do poder tende a naturalizar. Um partido de transformação não deve pedir aos jovens que abandonem sua rebeldia para entrar nele. Precisa oferecer espaço para que transformem rebeldia em organização, projeto e mudança.A direita e a extrema direita também disputam essa geração. Construíram jovens lideranças, tiveram êxito nas redes e souberam explorar frustrações que a esquerda nem sempre compreendeu. Ninguém possui o monopólio da juventude. O que esta eleição mostra é que essa disputa está aberta e que Lula, o PT e o campo progressista voltaram a ocupá-la com força.Nosso desafio é não desperdiçar essa oportunidade. Precisamos combinar experiência histórica com novas formas de participação, reconstruir o trabalho de base sem nostalgia e dar poder real às novas lideranças. Um partido que nasceu para transformar o Brasil não pode ter medo de se transformar.A aproximação que vemos nesta eleição será duradoura apenas se formos capazes de responder à pergunta essencial que toda nova geração faz à política: qual futuro vocês têm para nos oferecer? É isso que definirá a capacidade do PT de continuar sendo, nas próximas décadas, um instrumento de transformação do Brasil.José Dirceu é ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de São Paulo

A juventude empurra o PT para o futuro (por José Dirceu)
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